Eu nunca entreguei um currículo
- Selma Bastos

- 24 de mar.
- 2 min de leitura
E isso diz muito sobre o mercado de trabalho.
Por Selma Bastos
Eu nunca entreguei um currículo na vida, todas as oportunidades que tive vieram por convite e isso pode soar como privilégio. Porque é, mas existe uma parte dessa história que quase ninguém vê: ser convidada não significa ser acolhida.
Comecei minha trajetória em Florianópolis, onde também renasci como mulher.
Foram 14 anos em uma boate LGBTQIA+. Depois vieram convites para rádio, televisão e serviço público, uma carreira construída com visibilidade, mas também com silêncio.
Porque o maior desafio nunca foi entrar, foi permanecer sendo quem eu sou.
A maioria das empresas não está preparada para pessoas trans. E quando não há preparo, o que existe é adaptação, mas só de um lado: do nosso.
Você aprende a entrar em um ambiente já se protegendo não é insegurança é memória.
A transfobia nem sempre grita, às vezes, ela vem em forma de piada, de um olhar, de uma pergunta invasiva, de um julgamento disfarçado de opinião.
E então surge o dilema: ou você reage e vira “difícil”, ou você se cala e se machuca.
Durante muito tempo, eu escolhi suportar, sorrir de canto, responder com cuidado, engolir o desconforto.
Porque, dentro de uma empresa, nem sempre você pode dizer o que realmente precisa ser dito, sobreviver no ambiente corporativo sendo uma pessoa trans muitas vezes exige estratégia emocional constante existe algo que precisa ser dito com clareza: a mesma fala não tem o mesmo peso dependendo de quem diz.
Quando uma pessoa cis se posiciona, pode ser vista como firme, interessante, até engraçada, quando uma pessoa trans faz o mesmo, é interpretada como exagerada, agressiva ou inadequada.
Não é sobre o que é dito. É sobre quem está dizendo.
E isso cansa, cansa ser medida o tempo todo, cansa ser interpretada antes de ser ouvida, cansa precisar provar, constantemente, que você merece estar ali.
Com o tempo, eu mudei, fiquei mais observadora, mais silenciosa, mais estratégica, muita gente diz: “Você é tão diferente fora do palco…”
Sim, porque o palco é liberdade, mas muitos ambientes de trabalho ainda são contenção, existe algo que quase ninguém contabiliza: o trabalho invisível.
Além da sua função, você precisa explicar, ensinar, corrigir, traduzir a sua própria existência, você não só trabalha, você educa o ambiente inteiro e isso tem um custo, alto, diário e silencioso.
Por isso, quando uma pessoa trans diz que não quer estar no mercado formal, não é falta de ambição, é exaustão. Ninguém abandona um espaço que acolhe, as pessoas se afastam de lugares que ferem, inclusão não é sobre dar oportunidade, inclusão é sobre garantir permanência com dignidade, não basta contratar é preciso preparar é preciso educar é preciso construir um ambiente onde existir não seja um ato de resistência.
Hoje, olho para minha trajetória com orgulho, mas também com consciência.
Porque eu acessei espaços, mas nem sempre pude ocupá-los com liberdade.
Não queremos apenas entrar. Queremos pertencer.




Me tocou profundamente.
Esse relato traduz muito do que vemos, pessoas que aprendem a se adaptar ao ambiente ao custo da própria identidade.
Quantas pessoas estão sobrevivendo em silêncio, tentando caber onde não há espaço…
Pertencer com liberdade ainda é um desafio, mas precisa ser um direito.
Que a gente tenha coragem de ser e de permitir o outro ser também.
Senti lágrimas nos olhos ao ler o depoimento da Selma Light. A frase "Ninguém abandona um espaço que acolhe" é uma verdade.
Parabens por este espaço "TransAutonomia" desejo sorte, muita sorte. Sucesso.